lessphp fatal error: failed to parse passed in variable @bodyBackground: lessphp fatal error: failed to parse passed in variable @bodyBackground:  Nerd Libris - Eisner/Miller - Abacaxi Voador

Nerd Libris – Eisner/Miller


Capa do livro pela Editora Criativo

Capa do livro pela Editora Criativo

Dois gênios dos quadrinhos. Will Eisner e Frank Miller tiveram suas trajetórias cruzadas a partir da admiração. Miller não cansa de dizer o quanto os tipos e as cidades de Eisner o inspiraram, da Nova Iorque do seu Demolidor à Gotham City do seu Cavaleiro das Trevas. Eisner, por sua vez, passou a reconhecer no jovem e talentoso Miller motivações muito parecidas com as suas no início da carreira. A admiração se transformou em amizade e a troca de experiências e impressões sobre o mundo das HQs, do trabalho artístico aos ditames do famigerado mercado, foram assunto de vários papos dos dois, e surgiu então a ideia de registrar um desses momentos. Num final de semana de maio de 2002, o jornalista Charles Brownstein foi o responsável por documentar a conversa, que virou livro pela Dark Horse Books em 2005, mas só teve edição brasileira no ano passado, pela Editora Criativo.

Antes de falar mais sobre o livro, no entanto, acho que vale uma geral sobre quem são os caras (por mais que se trate de Eisner e Miller, tem sempre alguém aprendendo alguma coisa e é por isso que estamos aqui!)

Will Eisner, sem meias verdades, é o senhor supremo da arte sequencial. Contemporâneo de Bob Kane e Jack Kirby nos primórdios dos quadrinhos americanos (lê-se anos 30), teve seu trabalho reconhecido com as histórias de The Spirit, publicadas em tiras de jornais na virada dos anos 30 para os 40. Durante a Segunda Guerra Mundial, além de ser convocado pelo exército americano, trabalhou na elaboração de manuais de treinamento para as tropas, material este que se mostrou muito mais efetivo que os velhos manuais que continham só texto. Após a experiência na Segunda Guerra o artista volta a fazer The Spirit até 1952, e em seguida um hiato de mais de uma década o separa da produção de quadrinhos. Seu retorno, nos anos 70, rendeu ao gênero algumas das obras mais importantes, como a espetacular Um Contrato com Deus e a autobiográfica Ao Coração da Tempestade (já nos anos 90, e sobre a experiência da ida para a guerra). Seu nome só foi dado ao prêmio mais importante do gênero, o Eisner Awards.

Espetacular graphic novel de Will Eisner

Espetacular graphic novel de Will Eisner

O determinado Frank Miller chegou no mundo dos quadrinhos nos anos 70, e ao final da década ganhou destaque emprestando seus traços ao Demolidor, e assumindo em seguida também os roteiros do personagem. Ainda na Marvel, outro trabalho de destaque foi a parceria com Chris Claremont numa minissérie sensacional do Wolverine (1982). A consagração veio com Batman: O Cavaleiro das Trevas, em 86. O personagem, então com 55 anos e aposentado após a morte do segundo Robin, volta a lutar contra o crime num futuro alternativo, em abordagem muito mais crua e violenta. A série é um dos divisores de água do gênero para uma orientação mais realista e adulta, e inspira tanto HQs quanto outras mídias até hoje. Nos anos 90, Miller sedimentou seu trabalho autoral com 300, sobre a Batalha das Termópilas, e Sin City, este sim um universo ficcional plenamente de sua autoria, com estática monocromática marcante e inspiração no cinema noir.

Tem muito mais pra falar sobre eles, mas se eu não parar por aqui a gente não fala sobre o livro!!!

Em cerca de 350 páginas o longo papo dos dois artistas foi organizado em assuntos diversos, de forma a conteúdo, do processo criativo à relação com os editores. É interessante, em particular, a tentativa dos dois de encontrar paralelos entre as obras e motivações de cada um. Eisner está para o drama assim como Miller está para o melodrama, concluem. Enquanto Miller é mais cinema, Eisner é mais teatro. De questões técnicas aos temas abordados na obra de cada um, os assuntos vão se alternando em capítulos curtos, que proporcionam uma leitura dinâmica e agradável. De todas as obras dos dois autores citadas várias vezes como exemplos no decorrer do papo, resolvi voltar a Sin City, v. 5: Family Value (no Brasil, Sin City: Noite da Vingança). Como é diferente reler a obra depois de conhecer o que está por trás das ideias do artista! Também já separei Um contrato com Deus pra revisitar.

Capa de Hitchcock/Tiruffaut

Capa de Htchcock/Truffaut

Quem está na dúvida com medo de o material trazer muitas discussões e termos técnicos sobre o assunto pode ficar tranquilo. Tirando um momento pontual em que os dois falam sobre marcas específicas de tintas, em que patinei um pouquinho, confesso, o restante é claríssimo e ilustrativo, obviamente com foco no mercado americano de HQs. Eisner/Miller é perfeito pra quem quer se aprofundar no trabalho de dois artistas incríveis e completos (ambos escreveram e desenharam seus trabalhos autorais), que tem assinaturas estéticas inconfundíveis e sem os quais é impossível entender a história dos quadrinhos.

Inspiração (?)

Quando tive o primeiro contato com o livro Eisner/Miller, lembrei imediatamente de uma proposta muito parecida, que apesar de não ser influência confessa, pode certamente ter servido de inspiração. Durante as décadas de 50 e 60, o cineasta francês François Truffaut realizou uma série de entrevistas com Alfred Hitchcock, sobretudo com o objetivo de relativizar a opinião dos críticos americanos, que julgavam o trabalho do autor de Psicose mediano e comercial. O registro desse material, Hitchcock/Truffaut, também virou livro, lançado aqui no Brasil pela Cosac & Naify em 2004.

Igor Oliveira
Pai orgulhoso, nerd fervoroso, cosmopolita convicto. Com três anos de idade passava o dia trocando aquelas fantasias antigas de super-heróis. Hoje, aos 36, é pai do Pedro, namorado da Marina, e coordena o projeto Geek.Etc.Br na Livraria Cultura.
  • Carlos Lohse

    Ja vi esse livro do Hitchcock Truffaut e nao comprei. Preciso procurar. Tem lá no espaço geek da Cultura? :)))))

    • Igor Oliveira

      Carlos, o Hitchcock/Truffaut costuma ficar na área geral de cinema mesmo. Se não tiver pronta entrega é tranqüilo encomendar, porque está ativo no catálogo da editor. Vale muito a pena.

  • Maneiríssimo! Se não fosse você, não saberia que esse livro tinha sido lançado aqui no Brasil! Irei atrás!

    • Igor Oliveira

      Valeu, Caruso. Vale mesmo cada página. E depois reler as obras referenciadas vai ser tão bom quanto. Abraço!